Por: Felipe Ponzio
Ferramentas ajudam a pesquisar, organizar dados e testar hipóteses, mas exigem validação, transparência e pensamento crítico
Nas universidades, a inteligência artificial já participa de atividades dentro e fora da sala de aula. Estudantes recorrem às ferramentas para buscar informações, contextualizar temas, comparar interpretações e organizar ideias. A questão, portanto, deixou de ser apenas aceitar ou rejeitar a tecnologia, o desafio é identificar quando ela amplia o aprendizado e quando substitui o trabalho intelectual do aluno.
A IA como aliada na pesquisa e no ensino
Para Ferdinand Rafols, pesquisador do Grupo Interdisciplinar de Inteligência Artificial (GIIA), vinculado à Faculdade de Engenharia Elétrica (FEELT) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), a IA pode contribuir tanto para o ensino quanto para a pesquisa. Entre as possibilidades estão explorar grandes volumes de informação, apoiar revisões bibliográficas, organizar dados e testar hipóteses.
Em seu mestrado, Rafols investiga o uso de arquiteturas baseadas em grandes modelos de linguagem (LLMs) e agentes de IA em tarefas cognitivas complexas. O objetivo é ampliar a rastreabilidade, a confiabilidade e o controle sobre os resultados. O pesquisador alerta, porém, que os modelos podem apresentar respostas incorretas, criar informações aparentemente verdadeiras e responder de maneiras diferentes à mesma solicitação.
“A IA não deve ser vista como substituta do conhecimento ou do pensamento crítico do estudante e do pesquisador”, afirma. Por isso, o pesquisador defende mecanismos de validação, transparência e rastreabilidade que permitam compreender como cada resultado foi produzido e verificar sua qualidade.
No curso de Jornalismo da UFU, o professor doutor Marcelo Marques observa que parte dos estudantes utiliza a IA para diminuir incertezas, confirmar hipóteses e buscar contextualizações históricas, políticas e sociais. Para ele, o uso mais produtivo ocorre quando a tecnologia não encerra a pergunta, mas abre outras formas de interpretar o objeto estudado.
“Em sala de aula, ela tem sido utilizada como um laboratório de construção de sentidos, para interpretação e análise, inclusive de discursos”, diz. Nessa perspectiva, a ferramenta deve potencializar o pensamento da turma de maneira “ativa, e não reativa; dinâmica, e não estática”.
Riscos, evidências e o cenário nacional
A avaliação encontra paralelo em um estudo de caso realizado no Programa de Engenharia de Produção (PEP) da Coppe/UFRJ. O trabalho apontou riscos de plágio, dependência das ferramentas, perda de reflexão crítica e dificuldades de infraestrutura e financiamento. Também identificou possibilidades de desenvolver disciplinas, elaborar estudos de caso, apoiar pesquisas e tornar rotinas administrativas mais eficientes.
A popularização dessas ferramentas ampliou o debate. Uma pesquisa da consultoria Hibou, de 2023, indicou que 87% dos brasileiros já tinham ouvido falar de inteligência artificial e que mais da metade acreditava que a tecnologia afetava sua vida. Desde o lançamento público do ChatGPT, em 2022, sistemas generativos passaram a ser usados para resumir e traduzir textos, responder perguntas, produzir conteúdo e auxiliar na criação ou correção de códigos. A facilidade de acesso, entretanto, não garante precisão.
Governança e o mercado de trabalho
Para Hugo Thomeo Viesi, estudante de Análise e Desenvolvimento de Sistemas na Faculdade de Tecnologia de São Paulo (Fatec) e arquiteto de soluções na 5by5 | Soluções em Sistemas, a discussão não deve começar pelo grau de sofisticação do modelo. “Por mais sofisticados que sejam os modelos que surgem a cada dia, é fundamental contar com dados de qualidade e uma governança bem definida”, afirma.
Na rotina profissional, Hugo usa IA para acelerar a criação e o aprimoramento de apresentações, documentos e diagramas de arquitetura. Segundo ele, o ganho de tempo só é confiável quando as informações consultadas estão corretas e o contexto oferecido ao sistema é adequado. Nos estudos, o mesmo cuidado é necessário, uma resposta clara e bem escrita pode conter erros, omitir referências ou apresentar como fato algo não verificado.
O Futuro: Protagonismo Humano
Assim, a finalidade educacional não torna qualquer uso automaticamente adequado. Entregar como próprio um texto produzido pela ferramenta ou deixar de consultar as fontes originais compromete autoria e aprendizagem. Já o uso para formular perguntas, explorar hipóteses, comparar perspectivas e revisar um raciocínio que será checado pode apoiar a formação.
Para Rafols, a universidade tem a oportunidade de ir além do ensino operacional das ferramentas e formar profissionais capazes de compreender seus limites, impactos e implicações éticas. “A IA deve ser incorporada como uma ferramenta de apoio ao conhecimento, mantendo o protagonismo humano, a capacidade crítica e a responsabilidade sobre o resultado final”, conclui.


