Por Maria Clara Nunes
A saúde mental costuma ser discutida como um fenômeno individual, restrito aos consultórios. No entanto, para Daniel Souza, psicólogo formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), o bem-estar da comunidade LGBTQIAPN+ é, acima de tudo, um conceito bio-psico-social. Isso significa que a mente não descansa se o corpo não tem onde morar ou o que comer. Para Daniel, a saúde mental é inseparável da dignidade material e da segurança política.
“Alimentação é, sim, uma questão de saúde mental. Uma casa. Se eu não tiver uma casa, como vou ter saúde mental se todo dia preciso me preocupar com onde vou dormir?”
O “Medo da Escassez” e a Pressão pela Superqualificação
Um dos pontos mais profundos levantados por Daniel é o impacto da interseccionalidade, especialmente no recorte racial. Ele identifica o que chama de “medo da escassez”, um trauma comum em pessoas que vieram de contextos de extrema pobreza ou exclusão. Esse medo gera uma ansiedade constante de que, a qualquer momento, a estabilidade pode desaparecer, impedindo que indivíduos negros e LGBT+ desfrutem de suas conquistas.
Como resposta social a esse estigma, surge uma busca exaustiva por qualificação. Pessoas LGBT+ e mulheres tendem a acumular títulos acadêmicos, mestrados e doutorados não apenas por vocação, mas também como armadura para provar que “merecem” ocupar espaços que a sociedade tenta lhes negar.
“O medo da falta faz com que as pessoas nem consigam aproveitar plenamente suas conquistas. Esse medo da escassez afeta muito a saúde mental.”
A Cidade como Espaço de Exclusão
A saúde mental também é moldada pela arquitetura. Daniel aponta que cidades e instituições muitas vezes invisibilizam corpos diversos por meio da falta de acessibilidade. Seja pela ausência de banheiros unissex, seja pela negligência com elevadores e rampas para cadeirantes em universidades e condomínios, a mensagem transmitida é a de que aquele corpo não pertence ao espaço público.
Essa exclusão gera um sentimento de impotência que transborda para o núcleo familiar. Quando uma família acolhe um membro LGBT+ ou uma pessoa com deficiência, ela passa a sofrer junto com as barreiras que impedem esse indivíduo de usufruir plenamente da cidade.
Mercado de Trabalho: “Pink Money” versus Pertencimento
No cenário corporativo, Daniel critica a tendência das empresas de buscarem o lucro proveniente da população LGBT+ — o chamado Pink Money — sem oferecer, em contrapartida, uma estrutura de pertencimento real. Ele observa que muitas organizações criam vagas afirmativas, mas falham em fornecer o básico: banheiros seguros, lideranças preparadas para acolher denúncias de preconceito e, principalmente, oportunidades concretas de crescimento profissional.
A diversidade, segundo ele, muitas vezes para na base da pirâmide organizacional, concentrando-se em cargos juniores. Sem representatividade em posições de liderança e tomada de decisão, a inclusão torna-se apenas uma estratégia de marketing, contribuindo para o adoecimento e para a sensação de “teto de vidro” entre profissionais diversos.
“As empresas querem o famoso Pink Money, mas não querem fazer com que essas pessoas se sintam pertencentes.”
Política, Leis e o Papel do Aliado
A proteção da saúde mental também passa pelo campo jurídico. Daniel destaca que o direito de ir e vir e a segurança para denunciar violências, como a patrimonial — caracterizada pelo controle financeiro exercido pelo parceiro — ou o assédio, dependem da existência de canais de denúncia anônimos e de políticas públicas focadas em direitos humanos, e não na polarização.
Diante da exaustão provocada pela luta cotidiana contra diferentes formas de discriminação, Daniel reforça a importância dos aliados. Para ele, um aliado é alguém que utiliza seus privilégios para intervir em situações de injustiça quando grupos minorizados já não dispõem de energia para sustentar o enfrentamento.
Orgulho como Autodeterminação
Apesar das pressões estruturais e do apagamento histórico de figuras da comunidade, Daniel encerra com uma perspectiva de resiliência. Para ele, o orgulho não é um evento anual, mas a capacidade de construir uma trajetória sólida e ser “dono de si” apesar das estatísticas.
“Eu sou o que nasci para ser, e não o que aconteceu comigo. Então, eu me orgulho de ser o que nasci para ser: uma pessoa dona de si.”
E você, do que tem orgulho neste 28 de junho?


