Por João Victor Assunção
Às vésperas do Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+, celebrado em 28 de junho, a presença da comunidade em diversos espaços da sociedade vem crescendo. Nas últimas décadas, pessoas LGBTQIAPN+ passaram a ocupar cargos públicos, protagonizar filmes e séries, estampar campanhas publicitárias e participar de debates antes restritos a uma parcela muito limitada da população. Essa representatividade é importante, pois contribui para o reconhecimento da diversidade e para a quebra de estigmas historicamente construídos. No entanto, ela não pode ser confundida com garantia de direitos.
A presença de pessoas LGBTQIAPN+ em espaços de destaque, por si só, não altera as condições concretas de vida de milhares de indivíduos que ainda enfrentam violência, discriminação e abandono. Em 2025, o Brasil registrou 257 mortes violentas de pessoas LGBT+, segundo levantamento do Grupo Gay da Bahia. O dado reforça que é insuficiente celebrar a diversidade apenas no campo simbólico enquanto faltam mecanismos capazes de assegurar proteção, acesso à saúde, moradia e dignidade. Ser visto não é o mesmo que ser amparado.
Nesse sentido, é preciso reconhecer que a representatividade tem um papel importante, mas limitado. Ver pessoas LGBTQIAPN+ em posições de poder ou em produtos culturais pode gerar identificação e ampliar o debate público, mas não substitui a responsabilidade do Estado de promover políticas que garantam direitos e combatam desigualdades. Afinal, de pouco adianta haver discursos de inclusão se muitos ainda vivem com medo de denunciar agressões e atos de LGBTfobia por desacreditarem na punição dos responsáveis ou na efetividade da Justiça.
Além disso, a vulnerabilidade social enfrentada por parte dessa população evidencia a necessidade de políticas públicas permanentes. Jovens expulsos de casa em razão de sua orientação sexual ou identidade de gênero, por exemplo, frequentemente encontram um cenário marcado pela ausência de redes de apoio, pela dificuldade de inserção no mercado de trabalho e pela falta de acolhimento institucional. Nesses casos, a simples existência de figuras representativas na mídia ou na política é incapaz de oferecer respostas concretas para problemas urgentes.
Portanto, embora a representatividade tenha um papel fundamental na construção de uma sociedade mais plural e na valorização da diversidade, ela não pode ser tratada como um fim em si mesma. O reconhecimento simbólico precisa ser acompanhado por ações efetivas que garantam segurança, assistência e oportunidades. Mais do que ocupar espaços e ser vista, a população LGBTQIAPN+ precisa ter assegurado o direito de existir com dignidade.
À medida que se aproxima o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+, cabe uma reflexão: é possível falar em orgulho quando, para muitos, o simples ato de existir ainda é marcado pelo medo e pela violência? A resposta talvez esteja justamente na distância entre ser representado e ser protegido. Representatividade importa, mas só se torna transformação quando caminha ao lado de direitos, políticas públicas e compromisso real com a vida.



