Por: Maria Clara Nunes
Iusley da Mata não quer apenas ocupar espaços, ela quer transformar a forma como o mundo os enxerga. Mulher preta e trans de 31 anos, Iusley é a personificação da resistência que se recusa a ser reduzida a estatísticas. Formada em Moda e pós-graduada em Marketing Digital, ela trocou as fantasias cinematográficas de uma vida em grandes metrópoles pela realidade sólida e potente de ser uma “panterona corporativa” em Uberlândia.
Atuando como treinadora corporativa em uma grande empresa de contact center, Iusley transita entre todos os níveis da hierarquia, desenvolvendo pessoas e moldando a cultura organizacional com a mesma naturalidade com que comunica moda e comportamento para seus seguidores nas redes sociais. No entanto, por trás do brilho das telas e da autoridade profissional, existe uma jornada íntima de luta contra a depressão e a ansiedade, em um mundo que raramente oferece locais aspiracionais para corpos como o dela.
Nesta entrevista, Iusley revela como o suporte de redes especializadas em Uberlândia e sua própria determinação a mantêm firme em um propósito que define sua existência: “Eu tento viver e não sobreviver.”
Maria Clara: Para começar, eu gostaria de saber: quem é Iusley da Mata?
Iusley da Mata: Sou uma mulher preta trans de 31 anos, formada em Moda e com pós-graduação em Gestão de Marketing Digital. Na área de CLT, atuo como treinadora corporativa em uma empresa de Contact Center. E crio conteúdo para as redes sociais, falando de beleza, moda, comportamento… tento equilibrar a vida no meu cotidiano.
Maria Clara: Como foi sua trajetória da moda para o ambiente corporativo e essa transição para a área de treinamento?
Iusley da Mata: Desde muito cedo, sempre quis trabalhar com moda. Meu grande plano era terminar a faculdade para ir a São Paulo trabalhar em uma revista, mas o meio da editoria mudou muito com as redes sociais. Trabalhei com Visual Merchandising em lojas de departamento, mas o ritmo de shopping não me fez bem para a saúde mental. Voltei para a área de contact center querendo recomeçar. Quando fiz 30 anos, minha cabeça deu um “clique” e decidi explorar minha formação e contatos lá dentro. Fiz um processo seletivo para a área de treinamento de onboarding, que é uma área de integração de novos funcionários, e deu certo. Hoje desenvolvo materiais, apresento a história da empresa e tenho contato com todas as áreas, desde a infraestrutura até a diretoria.
Maria Clara: Qual é a sua relação com Uberlândia? Por que você não deseja sair daqui?
Iusley da Mata: Quando era mais nova, imaginava aquela vida de filme da “Sessão da Tarde”, mudando para uma cidade grande. Mas vi que muita gente vai para São Paulo ou Rio e não tem uma vida confortável. Atualmente, voltei a morar com a minha mãe após me separar do meu ex-marido e estou em um momento de redescobertas. Prefiro focar em viajar, estudar e ter estabilidade aqui do que sair para passar fome em outro lugar.
Maria Clara: E como você avalia a recepção de Uberlândia com a comunidade LGBTQIAPN+?
Iusley da Mata: Eu avalio bem. Vejo muitas pessoas de cidades menores que vêm para cá em busca de respeito. Temos aqui o CRAIST, que é o Centro Especializado de Saúde Transespecífica no Hospital de Clínicas da UFU, que dá suporte gratuito com hormônios, exames e consultas. Além disso, muitas empresas da cidade, como os contact centers, contratam muitas pessoas da comunidade por ser um trabalho rápido que nem sempre exige instrução prévia. É uma cidade bem colorida.
Maria Clara: Como é a realidade de ser uma criadora de conteúdo hoje?
Iusley da Mata: A gente se compara muito. Vi um estudo que apenas 9% dos criadores de conteúdo no Brasil sobrevivem só disso. Todos os outros precisam de uma renda extra, seja CLT ou vendendo cursos. Eu não ganho dinheiro direto das redes sociais hoje. No entanto, o que faço é pela comunicação, e isso é muito gratificante.
Maria Clara: Para finalizar, do que você se orgulha neste dia 28 de junho (Dia do Orgulho)?
Iusley da Mata: De estar viva. Eu sou uma pessoa que convive com depressão e ansiedade, assim como muitas pessoas da comunidade LGBTQIAPN+, especialmente as pessoas trans. Refletimos durante muito tempo sobre a nossa existência e é muito cansativo ser quem somos. Dentro do meu recorte de mulher negra e trans, a sociedade não deseja que tenhamos locais aspiracionais, o que torna a jornada exaustiva. Vejo meninas cis, brancas e heterossexuais alcançarem um estrelato enorme com conteúdos banais, enquanto nós nos esforçamos muito mais, e isso é desgastante. Então, chegar aos 31 anos e estar viva neste dia 28 de junho me deixa muito feliz. Para além do retorno financeiro, o que faço é pela comunicação; é gratificante quando uma jovem trans busca um conselho ou quando alguém da comunidade se sente inspirado a ocupar espaços no mercado corporativo. Ao me ver, isso não tem preço. Eu tento viver, e não apenas sobreviver.


