Por Ório Euzébio Freitas
Basta uma rápida olhada nos comentários de grupos de denúncias de redes sociais para encontrar o veredito: para parte dos moradores, a culpa da violência vivida no bairro Santa Mônica é culpa dos universitários. É comum ouvir essa associação em conversas ou postagens que relatam a desordem na região, frequentemente ligada à universidade.
No entanto, generalizar e rotular o estudante como o causador dos problemas distancia a comunidade acadêmica da cidade.
E também desvia o foco dos debates sobre segurança pública. Ao buscar um grupo culpado, deixam de ganhar espaços discussões sobre políticas públicas mais assertivas, que beneficiam estudantes, moradores e trabalhadores da região.
É curioso notar esse embate: enquanto parte dos vizinhos associa os alunos ao perigo, os próprios universitários são alvos constantes da insegurança nas ruas do bairro. A criação de grupos de acompanhamento e outros usos de estratégias coletivas de proteção são iniciativas para evitar situações de risco, que revelam o quanto a comunidade se sente fragilizada.
Embora a presença da comunidade universitária aumente a circulação de pessoas e possa tornar determinadas áreas mais movimentadas, isso não significa que os estudantes sejam responsáveis pelo aumento da violência. O problema precisa ser entendido de forma mais ampla, o ambiente universitário não é o fator causador de violência, mas sim a vítima de uma violência urbana que atinge diferentes grupos sociais de formas distintas.
Será que essa insegurança está realmente ligada à presença de estudantes ou a fatores estruturais de segurança pública negligenciada? O crescimento acelerado das cidades, a expansão sem planejamento adequado, desigualdades socioespaciais e falha no sistema econômico do qual estamos todos incluídos, são elementos que poderiam ser mais creditados como fatores do aumento da criminalidade.
É preciso lembrar também que o Santa Mônica é mais do que um bairro universitário. De acordo com o IBGE, a região tem 37.665 habitantes, enquanto o Comunica UFU destaca que a universidade reúne cerca de 20 mil estudantes. Mesmo na hipótese em que todos os estudantes, em todos os seus 7 campi, residirem no bairro, os universitários seriam apenas uma fração da população local. Esse “peso demográfico” estudantil é incapaz de justificar os índices de violência, provando que a insegurança nasce da insuficiência de respostas públicas e não dos moradores.
Quando a comunidade precisa recorrer a estratégias individuais de proteção, como a contratação dos “guardinhas noturnos”, organização de grupos de avisos ou para pedidos de ajuda, fica evidente que a segurança pública falhou. E na necessidade de encontrar responsáveis por problemas tão complexos, corremos o risco de ignorar as cobranças que realmente deveriam ser feitas às autoridades.
Para além de reproduzir estigmas e estereótipos, vale a pena refletir: Por que é mais fácil responsabilizar os estudantes? Talvez porque admitir a falha sistemática do poder público seja encarar um problema muito mais difícil de resolver.



