Por Vítor Turolla
Victória Rodrigues não apenas caminha pelo bairro Santa Mônica; ela o vigia. Estudante de Administração na Universidade Federal de Uberlândia (UFU) há quatro anos e meio, Victória aprendeu que circular pela região exige um olhar treinado para o que está fora do lugar. Para ela, o bairro não é apenas o cenário de seus estudos, mas um mapa de riscos onde cada rua, ponto de ônibus ou fachada de prédio é avaliado pela ótica da segurança.
Este sentimento de vulnerabilidade a levou ao grupo de Comunicação Meninas Santa Mônica. Victória não teve a iniciativa de criar a comunidade. Ela se juntou a muitas outras mulheres em redes como essa: por recomendação, por convivência e pela necessidade de se manter atualizada sobre o bairro.
Hoje, como uma das administradoras, ela ajuda a gerir esse meio de comunicação que o cotidiano é atravessado por alerta. “Me sinto insegura sempre”, resume ela, evidenciando que o medo não é um evento isolado, mas uma presença constante em sua rotina.
A função de administradora não a torna uma especialista em segurança, mas uma peça fundamental em uma rede de cuidado coletivo. No grupo, os relatos transformam o silêncio em proteção: mensagens sobre abordagens insistentes, furtos de bicicletas ou movimentações suspeitas perto de garagens permitem que outras mulheres reorganizem seus caminhos. É uma cartografia do medo que ajuda a evitar o próximo incidente.
Um episódio específico marcou a relação de Victória com o bairro. Ao sair da UFU em um deslocamento comum, ela percebeu que um homem a seguia. O que começou como uma dúvida virou um sinal de alerta quando ele insistiu em manter a distância de poucos metros e tentou puxar conversa. Mesmo em um trajeto conhecido, a segurança se dissolveu. Victória mudou o passo, buscou ruas movimentadas e só respiroualiviada ao entrar em um comércio. O episódio não terminou em agressão física, mas consolidou uma cicatriz psicológica: a de que o espaço público, para uma mulher, nunca é totalmente seguro.
Após esse susto, o papel de espaços como o “Meninas Santa Mônica” ganhou um novo peso para ela. Victória compreende que o grupo não substitui a iluminação pública, o policiamento ou as políticas que o Estado deveria oferecer. No entanto, enquanto as soluções institucionais não chegam, a rede oferece o que as autoridades falham em entregar: resposta imediata e acolhimento.
O perfil de Victória Rodrigues é o reflexo de muitas universitárias que precisam transformar medo em aviso e experiência individual em cuidado compartilhado. Entre as aulas de Administração e os alerta no celular, ela constrói uma relação com o Santa Mônica marcada pelo pertencimento, mas, acima de tudo, pela cautela. No fim das contas, sua história revela que, em um bairro onde a proteção é escassa, a informação compartilhada se tornou a principal ferramenta de resistência.


