Por Maria Clara Nunes
No bairro Morumbi, o aroma do feijão cozido e o som do picar dos legumes contam uma história que vai muito além da nutrição física. No centro dessa engrenagem, está João Batista de Souza, o Barba, um homem de poucas palavras, mas de gestos imensos. Ex-militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) por quase duas décadas, Barba canalizou sua experiência de luta para o combate à fome durante o auge da pandemia, ajudando a fundar as cozinhas que hoje são o sustento de muitos dessa região.
O pilar da cozinha
Barba não apenas coordena essas duas cozinhas; ele é a “bengala” de quem já não tinha onde se apoiar. Para ele, a cozinha solidária nasceu da necessidade urgente de ver a fome de perto e decidir que ninguém deveria enfrentá-la sozinho. Ativo desde os tempos em que transportava pessoas em seu caminhão no início do bairro Residencial Integração, ele conhece as dores da região como ninguém, e não conseguiu deixar ninguém desamparado.
A Cura pelo Afeto
Para Lindimar Alves, o apelido de “Madrinha” não é por acaso. Ela acolhe a todos com amor e respeito, tratando cada pessoa que chega em busca de um prato como se fosse da família. Mas houve um tempo em que Madrinha precisou ser acolhida. Em um momento de profunda fragilidade em sua vida pessoal, dependente de remédios e sem forças para lutar, foi Barba quem a incentivou a reagir. “Ele foi minha bengala, meu parceiro”, relata ela, explicando que a cozinha serve para curar não apenas quem come, mas também quem cozinha. Hoje, ela retribui o apoio cuidando da alma da cozinha Zaire Rezende.
A conexão de Maria de Lourdes com Barba é selada por uma memória de mesa vazia. Vizinha de Lindimar desde 2009, Maria enfrentou o desespero de não ter nada para oferecer à neta. “Não era ter um pouquinho de arroz; não tinha nada”, recorda. Foi Barba quem bateu à sua porta com frango, pão e leite, um gesto que ela guarda como uma bênção divina. Apesar das dores nas pernas causadas pela diabetes e pela artrose, Maria faz questão de estar na cozinha ajudando Barba. Para ela, servir o próximo é como “lavar a alma”.
A Rede que se Estende
O espírito de solidariedade que une Barba, Madrinha e Maria de Lourdes no Zaire Rezende se replica na cozinha do Carlito Cordeiro. Ali, Cleonice Ferreira e Tailane Moreina são as mãos que dão continuidade a esse ciclo de ajuda mútua. Assim como as companheiras da outra unidade, elas também encontraram no Barba o apoio necessário quando atravessaram seus próprios momentos de dificuldade.
Para elas, o trabalho diário não é apenas uma tarefa, mas um caminho de retribuição. Não se trata de pagar diretamente ao Barba pelo auxílio recebido, mas de transformar a gratidão em serviço, garantindo que o amparo que um dia as alcançou chegue agora a toda a comunidade. Nessa rede de afeto, a cozinha cumpre um papel sagrado: ao lutar para que não falte o prato para o próximo, elas também se alimentam dessa mesma solidariedade, nutrindo o corpo e a alma.
Mais que alimento, um reencontro
A história dessas cinco pessoas revela que a cozinha solidária em Uberlândia é, antes de tudo, um espaço de resistência e cura. A solidariedade é o fio que costura suas vidas: as cozinheiras socorrem Barba para que ele possa continuar socorrendo a cidade. Como bem define Madrinha: o local ajuda até quem faz a comida funcionar, pois todos ali, em algum momento, precisavam ser “curados” pela mão estendida de um amigo.
AJUDE A MANTER AS COZINHAS COMUNITÁRIAS CHEIAS!
As cozinhas solidárias de Uberlândia precisam da sua doação de alimentos não perecíveis, proteínas e temperos para continuar servindo refeições diárias a quem mais precisa.
📍 Onde entregar sua doação:
CIEPS / UFU – Campus Santa Mônica
Bloco 1S (Térreo) – Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (PROEXC)
Horário: 8h as 12h
Qualquer quilo de alimento faz toda a diferença.

