Por Vítor Turolla
A segurança nos bairros universitários de Uberlândia exige atenção constante, especialmente em regiões com grande circulação de estudantes, comércio ativo e vida noturna intensa. Para Giovanni Oliveira, gestor de segurança com vasta formação em Gestão de Risco e Inteligência, o enfrentamento à criminalidade nesses espaços não pode se limitar apenas à resposta policial após o crime.
Em entrevista à Agência Conexões, Oliveira defende que políticas de prevenção, integração institucional e melhoria da infraestrutura urbana são fundamentais para reduzir riscos no entorno dos campi. Confira os principais trechos da conversa:
Vítor Turolla: Como o senhor avalia a segurança pública nos bairros universitários de Uberlândia hoje?
Giovanni Oliveira: Os bairros universitários possuem características muito próprias, com fluxo significativo no período noturno e muitos deslocamentos a pé. Isso exige uma estratégia de segurança diferente daquela aplicada em bairros puramente residenciais. Uberlândia possui boas instituições, mas o entorno universitário precisa ser visto como um ambiente de prevenção. O desafio é reduzir as oportunidades para os crimes ocorrerem, e não apenas reagir a eles.
Vítor Turolla: Quais fatores tornam regiões como o entorno da UFU mais vulneráveis?
Giovanni Oliveira: A vulnerabilidade está normalmente ligada às oportunidades. Em regiões universitárias, é comum encontrar estudantes caminhando sozinhos e distraídos com celulares ou notebooks, principalmente à noite. Quando isso se soma a trechos mal iluminados, terrenos vazios ou rotas previsíveis, cria-se um ambiente favorável para delitos. O foco deve estar no planejamento urbano e na prevenção.
Vítor Turolla: Por que a prevenção deve ocupar o papel central nas políticas de segurança?
Giovanni Oliveira: Porque ela gera um impacto muito maior do que atuar somente após o ocorrido. Quando falamos em segurança, pensamos logo em policiamento. Ele é fundamental, mas sozinho não resolve. Segurança também envolve iluminação pública, mobilidade, tecnologia, inteligência e participação da comunidade. Quanto menos oportunidades o ambiente oferece, menor é a incidência de crimes.
Vítor Turolla: De que forma a infraestrutura urbana e o patrulhamento contribuem diretamente para reduzir a violência?
Giovanni Oliveira: Essas medidas atuam na percepção de risco do criminoso. Uma rua bem iluminada, com circulação de pessoas e patrulhamento frequente, reduz naturalmente as brechas criminosas. Não existe uma “bala de prata”, mas sim um conjunto de pequenas ações que, somadas, tornam o ambiente seguro para todos.
Vítor Turolla: Qual deve ser o papel da universidade em conjunto com o poder público e as forças de segurança?
Giovanni Oliveira: A segurança precisa ser compartilhada. A universidade identifica pontos críticos no campus; o poder público cuida da infraestrutura e manutenção; e as forças de segurança realizam o policiamento preventivo e a análise criminal. Quando esses três atores trabalham de forma integrada, os resultados são muito mais consistentes.
Vítor Turolla: Iniciativas dos próprios estudantes, como grupos de alerta, são eficazes?
Giovanni Oliveira: Sim, são extremamente positivas quando funcionam de forma responsável. Elas alertam sobre situações suspeitas e fortalecem a cultura do cuidado coletivo. Além disso, é vital que os estudantes registrem o Boletim de Ocorrência. Mesmo casos aparentemente “irrelevantes” servem de base para que a segurança pública direcione recursos e prioridades.
Vítor Turolla: Quais atitudes práticas os estudantes podem adotar para reduzir riscos no dia a dia?
Giovanni Oliveira: É preciso desenvolver a consciência situacional. Atitudes simples fazem diferença: escolher rotas iluminadas, evitar distrações, caminhar em grupo sempre que possível e compartilhar a localização em horários críticos. Isso não transfere a responsabilidade para a vítima; apenas ajuda a reduzir riscos individuais enquanto circulamos pela cidade.
Vítor Turolla: Como deve funcionar a integração entre moradores e órgãos de segurança?
Giovanni Oliveira: Através da troca permanente de informações. Moradores conhecem a rotina do bairro e a universidade conhece o comportamento da comunidade acadêmica. Quando esses dados são compartilhados com as forças de segurança, é possível identificar padrões, antecipar problemas e direcionar melhor os recursos disponíveis.
Vítor Turolla: Existem referências de políticas bem-sucedidas que Uberlândia poderia adotar?
Giovanni Oliveira: Diversas cidades combinam policiamento orientado por dados com revitalização de espaços urbanos. Um exemplo clássico é a “teoria das janelas quebradas”, aplicada em Nova York, que foca na ordem urbana para prevenir crimes maiores. Hoje sabemos que segurança eficiente depende mais de planejamento e integração do que apenas do aumento do efetivo policial.
Vítor Turolla: Se pudesse definir uma prioridade para a segurança estudantil agora, qual seria?
Giovanni Oliveira: Criar um Plano Integrado de Segurança para os bairros universitários. Esse plano deveria reunir a UFU, Prefeitura, forças policiais e comunidade para mapear pontos críticos e acompanhar indicadores continuamente. A segurança precisa ser construída diariamente por meio da prevenção, identificando vulnerabilidades antes que se tornem problemas graves.


